Na Europa, diariamente donos de restaurantes mais simples rumam em direção às vinícolas vizinhas com garrafões para abastecê-los com vinho e servi-lo aos seus clientes ou manter em seus estabelecimentos barricas trazidas das vinícolas locais. Desviam, assim, dos altos custos de engarrafamento (rolha, garrafa e rótulo) e distribuição.
Coisa que se repete desde a Antiguidade, quando, a rigor, não existiam restaurantes como os que conhecemos hoje. O principal atrativo dos seus ancestrais de então, as tavernas, era justamente... o vinho (ou a cerveja) da casa. E desde então se manteve o hábito, nas regiões vinícolas, de oferecer o vinho local, e a preços mais em conta.
Aqui no Brasil, o vinho da casa chegou como "sinônimo de porcaria", como diz Arthur Azevedo, diretor-executivo da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo. Eram vinhos de má qualidade vendidos a um preço muito baixo.
Hoje, no entanto, os restaurantes se preocupam, cada vez mais, em servir vinhos a preços mais baixos e, nem por isso, são as piores ofertas disponíveis como antigamente. E mais: vários deles passaram até mesmo a criar rótulos próprios. "O vinho com o nome da casa é uma tentativa de associar o restaurante a uma bebida de alta qualidade, com preço acessível", diz Azevedo.
Seleção
Na busca por bebidas que estejam em harmonia com a proposta da casa, restaurateurs partem para viagens dentro e fora do país para degustar e selecionar exemplares.
Marie-France Henry, do clássico La Casserole, foi para a França com seu sommelier, Sebastião Martins, e trouxe de lá um vinho de Bordeaux, produzido em uma pequena propriedade, para servir com rótulo próprio.
Lamberto Percussi, proprietário e sommelier da Vinheria Percussi, optou por um exemplar nacional, da Miolo. "Um vinho da casa tem de espelhar essa regionalidade." No início dos anos 90, Percussi lançou seu primeiro rótulo personalizado, mais básico.
Com a evolução do mercado, suas vendas caíram e não havia sentido mantê-lo na carta. "O consumidor tinha mudado, queria produtos mais complexos, e havia uma concorrência muito grande com chilenos e argentinos." Em 2008, portanto, ele refez a estratégia e lançou novo rótulo Percussi, da mesma vinícola, embalando um vinho de outro patamar, "mais moderno e aclamado", o Quinta do Seival 2005.
No Le Vin, que tem uma adega com cerca de 400 rótulos, o primeiro vinho da casa foi um argentino, mas hoje há um exemplar tinto francês. No próximo verão, no entanto, Francisco Barroso, proprietário do grupo, promete um vinho branco e um espumante (ou champanhe), o que hoje faz falta diante de um menu com presença de receitas do mar.